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Um café com os concorrentes daqui a 5 anos
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Posted by Esfinge on Sun Oct 15 16:45:33 2000: IP Address: 213.228.144.175
Não, o meu nome não é Teresa e eu não apresento programas de televisão. Chamo-me Noémia e vendo banha da cobra em qualquer cidade, muito prazer." Dizia exactamente isto, pelo menos, cinco vezes por dia. Já fartava. Até fazia impressão a qualquer pessoa que conhecesse bem esta mulher, aquilo por que ele passava diariamente. E fazia-o com toda a calma, assim como se toda a vida tivesse sido treinado para parecer outra pessoa e não se importar minimamente com isso. Esta mulher, que vivia com esta anulação diária e repetitiva daquilo que era para não parecer outra coisa, parecia feliz. Tanto que resolveu escrever as Outras Vidas da Casa do Grande Irmão. Depois do fim, tudo tem um começo. Então a hitória começa assim: O velho Fuzileiro Marco chegou-se ao balcão da pastelaria e pediu uma bica dupla. Como de costume. Enquanto esperava, mirou-se no espelho que servia de cenário às bailarinas de papillon vermelho que aviavam delícias de chantilly e galões mornos. Cofiou a postura de garanhão irresístivel, aprumou as calças justas, e pigarreou as résteas de cigarrilha turca que lhe atacavam a goela mandona. Recebeu a chávena debruada a café preto com honras militares, cruzando o sabre sobre a esguelha, com pompa e alguma circunstância. Embainhou a arma branca e carregou garbosamente sobre a indefesa cesta vergada sob o adoçante, bebendo o café duplo, preto e ardente de um só trago. Respirou fundo, fez girar uma moeda de cem escudos sobre o mármore pálido do balcão. Marchou fatalmente até à porta da pastelaria, sacou da velha corneta e soprou com prussiano fôlego. Foi então que o batalhão da cavalaria cossaca carregou Carregado abaixo sobre turistas, paneleiros, pedintes, pedantes, senegaleses de marfim, inválidos, poetas daltónicos, fetichistas da minissaia e das botas altas, e cães que passeavam donos, para entrar de rompante no mais moderno Centro Comercial do Carregado e pilhar a última colecção de lingerie de algodão e cetim provocante, que faria furor na próxima temporada na messe de oficiais. Ficou assim desde que saiu da Casa do Grande Irmão, leu as notícias e perdeu o amor da Marta. Ainda por cima o Zé Maria ganhou... Noutro ponto do país o paraquedista Telmo vive sozinho. Já não é Serralheiro chefe da sua micro-empresa. Num golpe só perdeu a Marta, depois mandou embora a Maria João e... apaixonou-se pela Célia que o largou pouco depois. Encontrei-o num café de Leiria com um Cachecol do Sporting a divagar alto: "O pato tem um bico, claro está. O que o torna parente próximo do ornitorrinco, que também tem um bico, mas em vez de penas, tem pêlos e vive na Austrália, enquanto o pato vive em diáspora. Mais ainda é o fogão que, em vez de um, tem quatro bicos (só Maria João sabe para quê). Na natureza das coisas com bico, há ainda a reverenciar o bico-de-obra, que tanto pode ser aresta de Torre Eiffel, ou discípulo envergonhado do nó górdio. Trilhando a genealogia dos bicos, descobrimos ainda Bic, da família das esferográficas, que se divide em Bic laranja, Bic cristal, escrita fina e escrita normal. Ele há ainda a Casa dos Bicos, que é onde os patos, os ornitorrincos, os fogões, os empreiteiros e os serralheiros falhados, as canetas Bic se juntam, uma vez de vez em quando, para emborcar conhaque Napoleão e ouvir Peter Gabriel a cantarolar a onde a Steve Biko". Posto isto, chama a empregada do café... e em vez de uma bica, pediu um bico. Corre sempre o risco de ser mal-entendido. Não sei o que aconteceu depoios porque tive de partir para o norte onde tinha um encontro com a mãe do Mário. A senhora convidou-me para falar do filho e fiquei ali a ouvir-la falar numa esplanada com vista para o Ponte da Arrábida. "Eu disse-lhe. Fartei-me de o avisar. Mas o raio do rapaz não me deu ouvidos e lá foi à festa de fim de ano da Sónia, aquela lambisgóia que lhe dizia ter uma química especial pelo meu filhinho. Durante toda a noite dançou e bebeu champanhe e comeu que nem um alarve. Logo ele, que nunca tinha saído da sua querida província e nunca tinha sido dado a excessos. Aquela criança inocente, de apenas 25 anos! Mas toda a gente ria muito das piadas sem graça que ele contava e das quedas provocadas pelo álcool. Naquela noite, o Mário perdeu a cabeça. O pior foi quando chegou a casa. Eram seis da manhã e ele entrou-me pela porta dentro aos trambolhões por todo o lado, a cantar aquela música do Diamond: "Red, red wine, Go to my head, Red, red wine, stay close to me". Só por aí dava para adivinhar a companhia que o desgraçado tinha tido durante toda a noite: bebida. E eu com muitos cuidados para que não acordasse os convidados, que dormiam no andar de cima da casa. Parentes próximos que tinham vindo passar o ano comigo, mas para quem a festa já tinha acabado havia muito tempo e que dormiam agora o seu santo sono. E o meu Mário olhava-me de esguelha e rosnava: "A dormir? Mas desde quando isto são horas para dormir? Eles que se acordem e que se fes... festejem." E cai-me no chão, deixando-me a mim a doce tarefa de o arrastar para cima. E, claro, quem teve de lhe aturar a ressaca também fui eu. As dores de cabeça intermináveis e os vómitos, que por pouco não lhe punham a descoberto o estômago. E logo no dia em que o padre Osório ia lá a casa! O assunto era o de sempre. O casamento da minha sobrinha, que também morava comigo. Se sempre seria este ano, ou não. Estávamos em amena cavaqueira, a meio do chá e, nisto, passa no corredor o Mário, agarrado à cabeça, em calças de pijama a gritar: "Perdi a minha virgindade! Perdi a minha virgindade!" Claro que, mesmo dito em portuense barato, quem ouviu percebeu perfeitamente o que ele queria dizer. De tal forma que o senhor padre, do alto dos seus sessenta anos, sempre tão lívido, corou até à raiz dos cabelos e saiu esbaforido a dizer que tinha que fazer e a excomungar a cambada de jacobinos e hereges que vivia naquela casa. Foi remédio santo. Nunca mais lá apareceu, com os seus longos discursos sobre a instituição que é o casamento. No ano seguinte é que a porca torceu o rabo. A acompanhar o Mário vieram, com sempre, todos os outros da sua irmadade ou lá o que é. A Joana, a sua ex-namorada, que sabia mais do que aquilo que contava. Desta vez eu tinha conseguido manter o Mário em casa, de modo que a lambisgóia da Sónia ainda não lhe tinha posto a fronha em cima. E não é que a mulher apareceu lá no dia de ano novo, com uma criança nos braços, a dizer que o pai era o Mário? O pobre diabo, sempre exímio em meter-se em sarilhos, mas muito pouco em livrar-se deles, passou por todas as cores e murmurava: "Não me lembro se foi com essa... Não me lembro..." Sorte a nossa, pela Joana, que se lembrou do tal teste do ADN. Mal conseguimos explicar à Sónia, a lambisgóia, do que se tratava, também ela se lembrou que tinha o que fazer e desapareceu com a criança nos braços. Sim, porque era só o que faltava ao pobre Mário: impingirem-lhe uma crinça, filha de lambisgóia". Afinal a menina era ou não filha do Mário. Ainda não saiu os resultados. Sai para para mais um encontro de primeiro grau, em Paredes com a loirinha Susana. Está bem de vida, deixou a ideia de vender roupa, casou com o Paulo - apesar de este saber da ternura que ela sentia pelo Zé Maria - e fui convidada para criativa de uma agência de publicidade. Fui ter com ela quando Susana olhava nervosa para a folha branca. Fora encarregue de redigir um slogan publicitário para uma campanha, que anunciava uma megafusão entre as empresas de café nacionais. Mas não lhe saía nada da tola fumegante, e a reunião com o cliente era às 3 da tarde. Decidiu ir beber um cafév comigo, daqueles expelidos para um copo de plástico, num corredor envolto por uma nuvem de fumo e com um forte aroma a perfumes caros das accounts. Bebeu de uma golada um café que parecia dinamite, explodiu para o seu bloco e escreveu o magnífico slogan: "Conheci uma BRASA que fazia asa DELTA, e comecei o dia já MOKANDO." Lindo, não acham? O director-geral da empresa - o Rick que deixou o surf e os contos - de cafés contorcia as mãos, nervoso, gotejavam-lhe pingas suadas, que escorriam para todo o lado, encharcando a camisa italiana. Trémulo, desapertou a gravata, olhou para todos os lados como se fosse acossado por uma matilha de fiscais das finanças, correu pela calçada da Ribeira. Transpôs um caramanchão, fintando uma ambulância com um cadáver esquisito e engasgado. Correu para o balcão e gritou: "Um café, depressa!" Está visto que o executivo era um cafeinómano. Agora podemos encontrá-lo todas as quintas-feiras em Paranhos, na sala do bingo do Salgueiros na reunião dos cafeinómanos anónimos, cujo lema era inspirado numa canção de Tom Waits e dizia "The coffee wasn't strong enough to defeat the cup". Da Susana, não consegui saber muito mais, é uma mulher muito ocupada. Tinha mais voltas a dar. Mais histórias a descobrir. Fiquei por ali... a tentar localizar outras figuras conhecidas. Quando as encontrar volto para lhes contar.
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